Como relaxar de verdade

Nota: Este texto é uma reflexão inspirada em processos de autoconhecimento e não substitui acompanhamento psicológico profissional.

Treinando a mente para desligar das preocupações

Descansar parece simples: basta viajar, desligar o celular, sentar na praia e aproveitar. Mas, para muitas pessoas, especialmente aquelas que carregam responsabilidades múltiplas, relaxar de verdade é um desafio.

O corpo está presente no descanso, mas a mente continua em estado de alerta, revisando problemas e antecipando tarefas.

Esse paradoxo é cada vez mais comum em um mundo acelerado, e aprender a lidar com ele é essencial para a saúde mental e física.

Neste artigo, vamos explorar por que é tão difícil relaxar, quais são os mecanismos internos que nos mantêm em vigília, e como criar um treino progressivo de desligamento mental.

O paradoxo do descanso

Recentemente, fui à praia com minha família. O cenário era perfeito: sol, mar, risadas, descanso. Mas, mesmo ali, percebi que não conseguia relaxar 100%.

Minha cabeça continuava conectada às preocupações: os animais em casa, a segurança, a alimentação, as tarefas da semana seguinte.

Foi nesse momento que entendi: não é falta de planejamento. É a dificuldade de desligar o “interruptor interno” que insiste em me manter em modo de vigilância.

Tudo parece resolvido. Mas, ao chegar à praia, a mente não se aquieta.

É como se houvesse uma “parte controladora” dentro de nós que não sabe tirar férias.

Essa parte não é defeito. Ela é fruto do amor, da responsabilidade e da necessidade de proteger quem amamos.

Mas quando não encontra um “interruptor”, pode levar ao esgotamento.

O custo invisível da hipervigilância

Estar sempre em alerta tem um preço.

Mesmo quando não há perigo real, a mente consome energia como se estivesse em uma batalha constante.

Esse estado de hipervigilância pode gerar cansaço, ansiedade e até esgotamento.

Além disso, isso me impede de aproveitar plenamente o presente.

Por que a mente não desliga?

Existem três grandes razões que explicam esse fenômeno:

  1. Preocupação como cuidado disfarçado

Pensar nos detalhes é uma forma de amar.

Revisar mentalmente os animais de estimação, a casa, a saúde da família é uma tentativa de garantir segurança.

Eu reviso mentalmente os detalhes, porque cuidar é um valor central para mim. Mas percebi que, quando isso se torna constante, rouba o presente.

  1. A ilusão de controle

Muitas vezes acreditamos que, se pensarmos nos problemas, estaremos mais preparados para evitá-los.

Na prática, a preocupação não altera o futuro, apenas consome energia no presente.

  1. Ausência de rituais de transição

O corpo viaja, mas o sistema nervoso continua em modo de trabalho.

Sem um gesto simbólico que sinalize “agora é seguro descansar”, a mente permanece em alerta.

O valor de estar presente

Quando conseguimos desligar, mesmo que por alguns minutos, percebemos detalhes que antes passavam despercebidos: o som das ondas, o calor do sol na pele, a leveza de uma conversa sem distrações.

Estar presente é mais do que descansar. É viver de forma plena, sem que a mente roube o momento com preocupações futuras.

O treino de desligamento progressivo

Descansar profundamente não é um evento único, é um músculo que se fortalece.

A chave está em treinar pequenas pausas no cotidiano, para que a mente aprenda a confiar.

Aqui está um plano prático:

FasePráticaObjetivo
Micro (30 seg – 2 min)Tomar um café sem celular, apenas saboreandoEnsinar que pausas curtas são seguras
Pequena (5–10 min)Yoga ou alongamento focado na respiraçãoCriar espaço de presença
Média (15–30 min)Ler um capítulo ou assistir a um episódio sem interrupçõesExercitar lazer sem culpa
Grande (1–2 horas)Uma tarde sem listas de tarefasSimular o estado mental da viagem

Essas práticas funcionam como um treino gradual.

A mente aprende que pode descansar sem que o mundo desmorone.

O medo por trás do controle

Quando tentei entender por que não conseguia relaxar, percebi que existe um medo escondido: se eu não estiver atenta, algo ruim pode acontecer.

Esse medo se manifesta em frases internas como:

  • “Se eu não pensar nas tarefas, vou esquecer algo importante.”
  • “Se eu não revisar a segurança, a casa pode ser invadida.”
  • “Se eu não cuidar, ninguém mais vai cuidar.”

Identificar esse medo foi o primeiro passo para começar a desmontar o padrão.

A parte controladora

Dentro de mim existe uma gestora interna, competente e dedicada.

Ela cuida dos detalhes, protege, organiza. Mas percebi que ela não tem horário de saída. Acredita que, se parar de trabalhar por um minuto, tudo desmorona.

O desafio não é demiti-la, mas negociar com ela. Passei a fazer um exercício de diálogo interno direto:

  1. Identifique e agradeça
    “Obrigada por manter tudo seguro e organizado. Você foi incrível.”
  2. Faça um acordo claro
    “Agora eu assumo o comando. Você pode descansar por 60 minutos. Se houver emergência real, eu te chamo.”
  3. Dê uma tarefa simbólica de folga
    “Enquanto isso, sua única função é observar a beleza do mar.”

Esse exercício ajuda a mente a sair do modo automático de preocupação e entrar no modo consciente de observadora.

Mindfulness e âncoras sensoriais

Quando a preocupação voltar, não lute contra ela. Use os sentidos como âncoras para trazer a mente ao presente:

  • 5 coisas que você vê
  • 4 coisas que sente fisicamente
  • 3 coisas que ouve
  • 2 coisas que cheira
  • 1 coisa que saboreia

Esse exercício simples reconecta ao momento e reduz a força dos pensamentos automáticos.

Descanso como autocuidado

Descansar não é luxo, é autocuidado.

A tranquilidade não surge quando todos os problemas estão resolvidos, mas quando aprendemos a estar presente apesar deles.

Hoje entendo que a paz não se encontra apesar da minha mente responsável, mas treinando-a para que a paz seja também uma de suas funções.

Dicas práticas para começar hoje

  • Escolha uma pausa de 2 minutos e faça dela um treino consciente.
  • Observe como sua mente reage: protesta, tenta voltar ao controle?
  • Repita diariamente. Constância gentil vale mais que perfeição.
  • Use rituais simbólicos para marcar a transição entre trabalho e descanso.
  • Lembre-se: descansar é parte do trabalho de cuidar de si mesma.
Nota importante: Este conteúdo é baseado em vivências e reflexões pessoais, e não substitui orientação psicológica profissional. Para aprofundar questões emocionais, procure um psicólogo ou terapeuta de confiança. Em crises, busque ajuda: CVV (188), CAPS ou emergência (192).

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